Jhonatan: Da favela pro mundo!
- 29 de out. de 2021
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Rio de Janeiro, 03 de Julho de 1999.
Na noite deste dia, Jhonatan, que só tinha 8 anos, dormia em um quartinho improvisado, na pequena sala da casinha da Rua Pedro Reis - morro da Caixa D’Água; Quintino - em que morava com a mãe, e o sempre ausente e agressivo pai. Lívia, sua mãe, fazia o jantar e pensava em pôr um ponto final em tudo e mudar de vida. Ela não aguentava mais apanhar de seu marido, Júlio, muitas vezes na presença da criança. Certo dia, Júlio chegou em casa - agressivo como de costume - e começou a humilhar a doméstica. No entanto, dessa vez, Lívia revidou as agressões verbais e acabou levando mais uma surra na frente do pequeno filho. Ela pegou algumas peças de roupas, seus documentos e a criança, aguardando meticulosamente Júlio adormecer para que, então, conseguissem fugir. Sem ter pra onde ir, Lívia e Jhonatan passaram a madrugada com frio e fome em um ponto de ônibus, esperando no amanhecer uma nova vida: sem sofrimento e dores. Logo cedo, Lívia parou uma viatura policial e pediu, desesperadamente, ajuda para conseguir conversar com uma assistente social; eis então sua primeira vitória. Com a ajuda dos policiais, Lívia conheceu Beth, uma excelente assistente social que lhe estendeu a mão, e prometeu ajudá-la. A essa altura, Jhonatan já entendia o que estava acontecendo e apoiava a mãe em tudo, nunca saindo de seu lado. Beth, que já estava comovida com a história da família, conseguiu um emprego para Lívia, que, com parte do singelo, mas significativo salário, alugou um quartinho no Catete – poucos metros quadrados, mas que seriam suficientes para a mãe e o filho -. Enquanto Lívia trabalhava, de Segunda a Sábado, Jhonatan estudava e fazia as tarefas domésticas. Com tantas coisas novas acontecendo, para mãe e filho, o tempo passou muito depressa: Jhonatan já estava com 15 anos, era o melhor aluno da turma e um cozinheiro de mão cheia! Foi então que decidiu fazer uma festa surpresa no aniversário de 40 anos de sua mãe. Pegou o pouco dinheirinho que ele havia juntado vendendo trufas para seus colegas e professores, comprou os ingredientes e fez um pequeno e delicioso bolo, alguns salgadinhos e refresco. Também comprou algumas bolas para enfeitar a parede mofada de infiltração. Ele deixou a porta entreaberta, apagou a luz e ficou da janela olhando a hora que sua mãe chegaria do trabalho. Assim que Lívia virou a esquina, Jhonatan acendeu uma vela que usavam para iluminar o ambiente nos constantes cortes de luz, e a colocou em cima do bolo. Quando a homenageada chegou e se deparou com a linda surpresa, abraçou Jhonatan, e chorando disse: “- Meu filho, eu te amo! Desculpe se não sou uma mãe presente, eu me mato de trabalhar para te dar um futuro melhor”. Jhonatan respondeu: “- Eu também te amo, mãe. Vou me matar de estudar para ter um bom futuro e te dar uma vida digna”. Em Dezembro de 2009, Jhonatan concluiu o segundo grau e, em 2010, prestou vestibular para gastronomia e passou com 100% de bolsa para uma das melhores faculdades do país. Essa foi a segunda vitória de Lívia. Jhonatan conseguiu comprar as apostilas com o dinheiro que ganhava fazendo doces e salgados para fora. Já no terceiro período de faculdade, Jhonatan era o destaque e, talvez por isso, começou a sofrer muito racismo dentro e fora da sala de aula. Ele não contava para a mãe, pois não queria vê-la triste. A única pessoa que Johnatan tinha pra desabafar era a May, uma menina rica, moradora da zona sul carioca. May o defendia sempre e também o ajudava comprando seus quitutes, fortalecendo sua renda familiar. Não podia dar em outra coisa, May e Jhonatan se apaixonaram e começaram a namorar. Nos fins de semana, May sempre ia para casa do seu grande amor, e adorava ficar ouvindo as história de vida e de superação que a sogra, Lívia, lhe contava. No quinto período de curso, May e Jhonatan vendiam muitos doces e salgados, e já não era só para conhecidos; eles vendiam para grandes festas e eventos. A essa altura, May já havia brigado com a própria família por não aprovarem seu relacionamento com o jovem, usando a discrepância entre suas classes sociais como argumento. Logo, foi morar com o namorado e com a querida sogra, mulher guerreira que a inspirava. Com esse bom dinheiro entrando, May resolveu comprar um carro, e teve mais uma aula da inspiradora sogra: Lívia fez May e Jhonatan devolverem o carro e continuarem a juntar dinheiro; foi o que os dois fizeram sem pensar duas vezes. Faltava um mês para se formarem, o trabalho dos dois só crescia e Lívia já não trabalhava mais pra fora, ela já estava trabalhando com o filho e com a nora. As folgas de Lívia já não eram mais aos Domingos, pois, aos fins de semana, o trio tinha bastante trabalho para entregar as grandes encomendas. As conversas passaram a ser às Segundas e, em um desses bate papos, Lívia perguntou: “- Lembram quando sugeri que devolvessem o carro? Então, eu também tenho minhas economias, e chegou a hora de vocês darem um passo muito importante. Vocês tem que abrir o restaurante de vocês e vou ajudar com o que tenho”. Os três se abraçaram, choraram e já começaram a planejar tudo. May fez diversos desenhos de como poderia ser; Jhonatan elaborou alguns cardápios e Lívia organizou todo o investimento. A formatura foi linda, mas não foi a mesma festa do resto da turma; eles fizeram uma festa apenas para os três, com poucos amigos. Lívia e o filho fizeram uma surpresa, pois, sem contar para a May, Jhonatan foi até o Leblon e fez, pessoalmente, o convite para que seus sogros fossem à festa. Foi uma surpresa linda e a família voltou a ser completa. A festa foi sensacional e todos passaram a conviver e dividir experiências incríveis juntos. Depois de três meses da formatura dos chefes, Lívia fechou o contrato de locação de um espaço, comprou mesas e cadeiras de segunda mão, fogão industrial e utensílios seminovos e, juntamente do namorado e de Lívia, começou a pôr em prática o sonho em comum. Em 2015, o restaurante – que nomearam de “Nosso Sonho” - era um tremendo sucesso, e inclusive ganhou, após tremendo esforço da família, a tão sonhada quarta estrela. Mas, infelizmente, depois de um dos temporais de Janeiro, o restaurante inundou e eles perderam quase tudo. A tristeza era grande e o pensamento de desistir chegou; mas não na cabeça de Lívia, que se apegou aos seus orixás e pediu uma solução. Em uma de suas rezas, Lívia pediu tão forte, mas tão forte, que a oração tocou o coração do milionário Sr. Joaquim, pai de May. Ele não sabia que o restaurante havia sido inundado e resolveu visita-los. Ainda de longe, Joaquim percebeu o estrago e, ao entrar por uma portinha entreaberta, se deparou com a destruição. Joaquim, então, indagou: “-Vocês possuem capital para reerguer?” May, chorando, respondeu: “- Não, pai, o sonho acabou”. Lívia, que estava atrás de um balcão limpando o chão, se levantou e disse: “- Não, querida, não acabou. Não pode acabar assim. Amanhã mesmo vou ao banco tentar pegar um empréstimo”. Joaquim pediu a palavra e, chorando, disse: “- Filha, Jhonatan e Lívia, quando eu tinha 14 anos, tive que começar a trabalhar em Portugal. Lá eu era ajudante de padeiro. Com o tempo, eu comecei a aprender a profissão e fazia pães maravilhosos para vender em casa. Dei duro e juntei dinheiro por dez anos, logo depois a May nasceu e resolvi abrir minha primeira padaria. Depois vim para o Brasil e, aos poucos, construí a rede de padarias que tenho hoje. De tanto trabalhar, não dei a atenção e o amor que a May merecia. Por muito tempo eu achei que dar os melhores presentes e pagar os melhores colégios era suficiente, mas, no dia que ela brigou comigo por amor ao Johnatam, eu percebi que o amor vale mais que qualquer milhão. Nos últimos meses, convivendo com vocês de perto, pude perceber que a união e a família valem mais que qualquer preço. Por isso lhes peço: aceitem minha ajuda financeira e me paguem da forma que conseguirem. De hoje em diante, o sonho de vocês também é o meu sonho”. May, então, respondeu: “- Obrigada, pai, mas eu só aceito se o senhor parar de chorar e vir nos ajudar a limpar, pois temos muito a fazer”. Os quatro riram, e o Rei das padarias levantou as mangas e começou a ajudar na limpeza. No dia seguinte, todos começaram a procurar os utensílios que precisavam para que, finalmente, pudessem reabrir o Nosso Sonho. Em duas semanas, o restaurante já estava funcionando normalmente. A cada dia o faturamento aumentava mais e mais. Jhonatan ensinou e contratou dois amigos de infância para ajudar na cozinha, e mais duas grandes amigas: uma para ajudar dona Lívia no caixa, e a outra para ajudar May no salão. Os quatro do morro da Caixa d’Água. A terceira vitória de dona Lívia, foi quando o restaurante ganhou a quinta estrela. Eles foram matéria de uma das mais importantes revistas de gastronomia do Brasil e, com o boom do restaurante, pagaram a dívida com o senhor Joaquim. Um dia, May passou mal no salão e desmaiou. Pronto, vinha aí a primeira netinha das duas famílias. Manuela os uniu ainda mais. As famílias sempre faziam festas juntas. O combinado é assim: se tiver festa no Leblon, o povo de Quintino vai. Se tiver festa em Quintino, quem vai é o povo do Leblon. Jhonatan realizou mais um sonho: comprou a velha casinha da rua Pedro Reis, e lá, ele abriu uma oficina de gastronomia para os moradores do morro. Ainda fez mais: enquanto as mães estão no curso, as crianças estão na creche ao lado, que foi criada pela May. O Jhonatan venceu, junto com dona Lívia, com a esposa May e com a ajuda do senhor Joaquim. Mesmo estando onde está hoje, Jhonatan nunca se esqueceu de onde veio e, sempre que pode, está lá na Caixa D’Água batendo uma bolinha.
Ah, ele paga a clínica de reabilitação de alcóolatras para o pai e ajuda algumas famílias de diversas favelas. Também acabou de inaugurar, junto com a Voz Das Comunidades, uma biblioteca popular lá na Cidade de Deus.
Felippe de Lima Passagem.





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